Palavras soltas...

(...) "Tenho aprendido muitas coisas nos últimos tempos. Uma delas é que jamais podemos deixar para amanhã um gesto de carinho, um sorriso verdadeiro, uma declaração de amor."

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quarta-feira, 8 de julho de 2009

Protesto!


Eis a vida.
Se eu não estiver enganado, o primeiro protesto do qual eu me lembro de ter assistido, aconteceu na Copa do Mundo de 1990. Naquele fatídico ano, nossa Seleção fora desclassificada nas oitavas de final ao perder para eles, nossos hermanos, os argentinos. Na volta para casa, o técnico da época, Sebastião Lazaroni e Dunga, hoje treinador, foram responsabilizados pelo público, pelo povo, como os dois principais responsáveis pela eliminação precoce.
Por sermos conhecidos como o país do futebol, é lógico que todo mundo ficou puto da vida! Assim, os protestos foram intensos – não violentos. Resumindo: o time jogou mal e o povo protestou. Justo.
Um pouco depois, em 1992, uma grande quantidade de jovens brasileiros tomou as ruas das principais cidades do país exigindo o impeachment do presidente da República, Fernando Collor. (Lembro-me bem que muitas mulheres votaram nele por o achavam “bonitão”). Conhecidos e eternizados como os “caras-pintadas”, pois na face sempre havia as cores da bandeira nacional, eles ajudaram – através dos protestos – a derrubar Collor do poder. Com várias acusações de corrupção em cima das costas, o ex-presidente, acabou renunciando ao cargo no dia 29 de dezembro daquele ano. Ainda assim, ele perdeu seus direitos políticos por oito anos.
Pois bem: o cara foi eleito pelo voto popular. Não fez a tarefa da forma correta. O povo ficou puto da vida e protestou. Justo.
Além desses, vi vários protestos. Já vi estudante fantasiado com nariz de palhaço para protestar contra a falta de atenção a um dos maiores bens de uma nação, a educação.
Vi também – várias vezes, diga-se de passagem – um monte de gente vestida de branco protestando e pedindo paz. Quantas vezes presenciei o povo protestando e pedindo mais empregos, mais saúde, mais atenção...?
Uma vez, participei de um protesto encabeçado pela Igreja Católica. Tratava-se do Grito dos Excluídos e pedia a inclusão social de todas as raças e povos. Pedia igualdade. Pedia justiça. Paz.
Também me lembro de participar de um protesto, não me lembro ano, do Encontro Nacional de Meninos e Meninas de Rua. Nunca fui morador de rua, mas queria e quero ajudá-los de alguma forma.
Claro, não podemos deixar de citar os protestos no Irã, após as suspeitas de fraudes nas eleições presidenciais. Lá, o povo protesta porque quer ser livre.
Enfim, acredito que desde o futebol até aos companheiros do Irã, os protestos eram por causas nobres. Válidas e, por isso, justas.
Agora, vejam comigo: no último domingo, dia 5 de julho, fui chamado para cobrir a notícia de um acidente de trânsito. Até aí tudo “normal”. Acidentes no trânsito acontecem todos os dias, seja por distração ou imprudência dos motoristas.
Porém, quando eu a fotógrafa do jornal chegamos ao ponto indicado, o tumulto que geralmente cerca os carros dos acidentados não estava lá. Olhando para cima, na rua próxima ao local da colisão, vimos um monte de gente gritando, outros chorando e outros só olhando. Fomos lá.
No meio da multidão, um homem arrastava o outro para o local do acidente. O primeiro, um transeunte que passava por ali na hora do sinistro. O outro, o motorista, bêbado. Sim, ele estava tentando fugir depois de colidir sua camionete, uma Hillux, em uma pick up Fiat Strada na qual estavam pai, mãe e a filha deles, de apenas oito anos.
A população protestou. Não admitia tal atitude. O povo ficou puto. Inclusive, alguns mais exaltados queriam linchar o motorista embriagado. A filha dele chorava. A ex-mulher e mãe da garota, também com uns copinhos de cerveja na cabeça, enfrentava a multidão. O povo gritava. A policia chegou. A gritaria aumentou. Um senhor apontou. E o motorista consentiu. Foi preso para alívio dele próprio – pois senão levaria uma surra – e desespero da filha. O povo aplaudiu.
Enquanto tudo isso acontecia, minha colega, a fotógrafa, fez seu serviço. Foi então que um grupo de jovens, amigos do condutor alcoolizado, resolveu encrespar. Eles não queriam que o “coitado” do motorista embriagado fosse fotografado. “Vai prejudicá-lo”, diziam eles, levando as mãos no rumo da lente da máquina. Mas, ela, minha colega e amiga, é porreta. “Estou fazendo e vou continuar fazendo o meu trabalho. Saiam para lá seu bando de mauricinhos!”, disparou, nervosa. Foi então que eu presenciei a cena mais triste e ridícula dos últimos tempos: organizados, os cerca de seis jovens levantaram os braços com os punhos fechados e tamparam a visão do camburão, impossibilitando que o homem fosse fotografado. Se eu não soubesse do que se tratava, diria que a cena era linda! Imaginem e construam a imagem dentro das suas mentes: Punhos erguidos para o céu em nome de uma causa! Pena que a causa e a intenção do protesto deles era ocultar um motorista embriagado que acabara de deixar uma família ferida e, pior ainda, tentou fugir. Fiquei puto!

2 comentários:

Mônica disse...

Sei lá, talvez como tenha dito Renato Russo a culpa disso tudo tenha sido a Geração Coca cola ou a nova geração de NXZeros e emos que surgem feito pipocas "tristes" todos os dias. Gente que só tem gás industrial na cabeça só pode mesmo virar os protestos de cabeça pra baixo...

Patrícia disse...

apesar de lamentável, queria ter visto esta cena, ver minha prima em ação e enfrentar os caras ao lado dela.